quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A estigmatização da velhice

Os direitos humanos são os direitos e liberdades básicos de todos os seres humanos, normalmente o conceito de direitos humanos tem a ideia também de liberdade de pensamento e de expressão e a igualdade perante a lei.  A longevidade sempre foi uma pretensão de todos os povos, de todos os indivíduos, encontrarem a fonte da eterna juventude como elixir da longa vida, era o sonho de Ponce de León e de tantos outros alquimistas, que viam nessa busca a concretização, há tanto acalentada, de permanecerem eternamente jovens.
A imagem da velhice sempre foi estigmatizada, considerada como algo ruim, de prognósticos tristes e pessimistas, pois seu destino só poderia ser a morte, o fim, a velhice assusta porque ela representa a negação de valores até então cultuados, como a beleza, a austeridade, produtividade, força, poder, valores esses considerados próprios da juventude.
No entanto, se fizermos uma revisão histórica, vamos encontrar figuras proeminentes já em idade avançada que se constituíram em faróis de iluminação e sabedoria para as gerações vindouras. Na área da fraternidade e do exemplo cristão, tivemos Madre Tereza de Calcutá e, mais próxima a nós, Irmã Dulce, embora alquebradas fisicamente pelo tempo, eram portadoras de lucidez, dinamismo, sabedoria e, sobretudo amor, que se transformaram em exemplos vivos de trabalho e dedicação às populações mais carentes.
Um ser humano pleno
Há que se considerar que estamos vivendo numa sociedade capitalista de contornos neoliberais, a qual se caracteriza pela decrescente responsabilização do Estado em relação à melhoria da qualidade de vida da população; pela privatização de empresas estatais; a não intervenção do Estado nos aspectos econômicos que devem se desenvolver no livre jogo do mercado; alterações na esfera produtiva e a redução de gasto público centrado na diminuição de recursos destinados principalmente à área social, essa marginalização do idoso decorrente de ideologias, de preconceitos internalizados e expressos em nossa sociedade e do conjunto de fatores sociais e econômicos produzem sentimentos de revolta e impotência, relegando os idosos a um plano secundário na família e na sociedade.
A velhice não pode ser vista como término, mas como um recomeçar com características e valores próprios. E com uma nova forma de olhar o mundo, a prática política e social reivindicatória se tornará mais rica quando o idoso, consciente de seu potencial, dessa sabedoria, se respeitar e se fizer respeitar. Não pelo poder, pelo autoritarismo, ou sujeito só de direitos, mas pelo reconhecimento do seu valor intrínseco, como ser humano pleno.

ARTIGO DE RODOLPHO RAPHAEL  PUBLICADO NO OBSERVÁTORIO DA IMPRENSA  EM 2010

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