segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Um de vós me entregará..."


Anúncio da traição de Judas Iscariotes. A proclamação do Evangelho de hoje com o anúncio da traição de Judas e da futura negação de Pedro, situa-se nos relatórios que antecede a celebração da ceia pascal. Jesus está reunido com os seus discípulos. Acabado o lava-pés, e sem rodeios, anuncia-lhes a traição de um deles. O espanto invade o grupo. O anúncio da traição de Judas cai sobre o grupo dos apóstolos como uma ducha de água fria.  Pedro pergunta ao Mestre quem é. “Aquele a quem eu der o pão umedecido no molho”. Mas Judas julga-se a si mesmo, recusando a amizade de Jesus (v. 27) e se deixando invadir pelo pecado (Jo 8,44).

O oferecimento do pão umedecido feito por Jesus a Judas era um convite a deixar de lado os seus planos homicidas e reaver uma amizade rompida pela sua ambição e ressentimento, convida Judas ao arrependimento, isto é, tenda ainda a mudar seu coração. Tudo foi inútil. Judas rejeitou definitivamente o amor de Jesus. Adverte a Pedro da tentação à qual ele está exposto. Pedro declara-se pronta a dar a vida por Cristo (v. 27). Pretensão curiosa uma vez que cabe a Cristo dar a vida pelos seus! Jesus faz esmorecer o entusiasmo de Pedro prevendo sua própria traição (v. 28).

Três homens encaram a vida de modo bem diferente nesse episódio da última Ceia Pascal. Judas julga que a vida não tem um preço lá muito grande, principalmente quando se trata da vida dos outros. Vive a vida, prendendo-se a seus elementos mais superficiais, como o dinheiro. Judas despreza a vida como ele é, tanto a sua como a dos outros.

Pedro tem algumas propostas boas: sabe que a vida se revela no relacionamento e no dom: só vivemos quando nos doamos a alguém, isto é, só conseguimos nos manter vivos no próximo que precisa da nossa doação. Mas o “eu” de Pedro, aquele que dá a sua vida, é muito exterior a ele próprio. Pedro vive na superficialidade e dá alguma coisa que o ultrapassa, que tem mais peso do que ele. Assim, se deixará arrasar por esse dom e o retomará após a ressurreição de Jesus. Não é aquele que quer dá a sua vida.

É com o domínio de si que Jesus faz de sua vida um dom. Ele doa a sua vida aos seus amigos e também aos seus adversários, decide a hora e organiza o desenrolar dos acontecimentos: o “eu” de Jesus se situa no próprio nível da vida mais profunda, onde podemos criá-la verdadeiramente, suscitá-la e doá-la. É a misteriosa personalidade de Jesus, onde o “eu” que dá não se distingue da vida que é dada, onde tudo é dom e que não se arrepende desse dom. Jesus aprendeu com o Pai que o mistério da pessoa é o mistério do dom.  
Quando Judas saiu da sala era noite, observa João com intenção simbólica. O traidor é um exemplo das trevas (pecado) sobre as quais brilhou em vão a luz, como diz João no capítulo um do seu Evangelho. Judas é o que ama as trevas mais que a luz, porque suas obras eram más. Chegou a noite predita por Jesus, a noite do poder das trevas. Mas a longa noite que se abateu sobre a terra terá a sua aurora no primeiro dia da semana, na manhã da ressurreição.

Um amor atraiçoado e negado. Dois homens que falham: Judas e Pedro. Mas o seu pecado tem origem diferente: em Judas á a avareza que odeia, em Pedro a fraqueza que ama. E o seu final é muito diferente: Judas desespera, Pedro arrepende-se. Naturalmente, Pedro conhecia Jesus porque O amava, enquanto Judas o odiava porque não o conhecia.

Que o Senhor nos dê a graça de participar da sua Ceia Pascal de modo fiel e sem traições nem negação de nossa adesão a Ele.

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